Arquivo Feminista: entrevista com o Coletivo Feminista Geni da Fmusp

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O ambiente universitário tem expandido minha curiosidade sobre questões sociais e políticas, possibilitando conversas com diversas pessoas, sobre assuntos que até então eu não tinha tanta curiosidade ou entendimento. Sair da bolha está sendo incrivelmente libertador e cada vez me trazendo mais conhecimento e interesse em diferentes assuntos.

Pensando nisso, notei como o último semestre foi importante em diversos sentidos. Um deles foi que eu me aproximei definitivamente do movimento feminista. Todos os trabalhos que produzi individualmente dentro da universidade, foram sobre questões feministas e até mesmo o recomeço desse site também foi diretamente incentivado pela minha nova e constante curiosidade no movimento.

Pretendo então iniciar uma nova categoria aqui, intitulada inicialmente de Arquivo Feminista, com o objetivo de reunir muito conteúdo, indicações e diferentes contextos e visões sobre o assunto, por meio de entrevistas, filmes, livros e outros materiais.

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Para dar início à categoria, compartilho a entrevista que fiz com a estudante Déborah Haymée, do Coletivo Feminista Geni da Faculdade de Medicina da USP.

1. Com que idade e como percebeu a importância do feminismo na sua vida?

Comecei a perceber com uns 8 anos, quando comecei a ser tratada diferente do meu irmão mais velho, quando eu não podia fazer alguma coisa “por ser menina”. Na forma como fui criada, com a minha avó ressaltando sempre questões como eu não ter que “lavar cueca de marido”, na importância de estudar, ter um emprego para não depender de ninguém e poder ser livre para fazer minhas próprias coisas. Isso foi se tornando cada vez mais forte e em 2009, com 15 anos, eu entrei em uma escola técnica e lá pude entrar em contato com pessoas diferentes, com o movimento estudantil, negro, sem terra, LGBT e feminista. Lá eu pude ver algo que não vejo nem na universidade, que é a auto-organização social e como esses diversos movimentos realmente funcionam fora de uma bolha.

2. Como funciona o coletivo que você participa? Que tipo de ações realiza?

O coletivo que eu participo passou por algumas fases. Tivemos muitos problemas iniciais com denúncias de abuso sexual dentro da faculdade de medicina e uma consequente represália intensa, que dura até hoje. Nós ainda temos essa pauta dentro do coletivo, mas não é mais a única e principal. Apesar de não termos conseguido a justiça que esperávamos com as denúncias, pelo menos abriu-se um caminho dentro da Faculdade de Medicina, para que essas denúncias continuem a acontecer.

Nosso foco hoje é voltado mais ao empoderamento feminino e a discussão dos nossos papéis de gênero dentro da Universidade e da carreira médica, além da tentativa de elaboração de soluções para os diversos problemas que enfrentamos no nosso cotidiano. Nossas ações passam por acolhimento e apoio a garotas em diversas situações, além de levantamento de temas, às vezes algum trabalho com a imprensa e apoio a outros coletivos feministas também.

Realizamos também reuniões e cobranças à diretoria, núcleo de Direitos Humanos e ouvidoria da Faculdade de Medicina da USP. Fundamos uma liga de atenção a violência de gênero que é aberta a todos os cursos de saúde da USP, que busca promover um atendimento de escuta qualificada a vítimas de violência, sobretudo de gênero.

Tentamos fazer reuniões quinzenais com o coletivo, para discutir pautas e demandas e às vezes promovemos alguns eventos, como o Cine Geni, ou até mesmo alguma palestra ou atividade sobre feminismo. Estamos também presentes em festas, recepções e campeonatos para o acolhimento das estudantes, novamente devido ao grande histórico de abuso que temos dentro da Faculdade de Medicina da USP.

Somos um coletivo horizontal e auto-organizado, sem hierarquia.

3. O que o coletivo permite você desenvolver que sozinha talvez não fosse possível?

O coletivo me permite debater, discutir, ser apresentada a coisas novas, nos dá voz e nos protege como um todo. Além disso, me tira da zona de conforto e coloca nossas ideias no mundo real, onde podemos debater a viabilidade daquilo que pensamos e fazer modificações naquilo que nos incomoda.

4. Em relação as conquistas da mulher, o que você avalia ter mudado nas últimas décadas e quais os desafios atuais para as mulheres? 

Acredito que a saída da mulher, da casa para o trabalho não doméstico é o primeiro e talvez mais importante pontapé para as demais conquistas femininas. A possibilidade de trabalho remunerado e consequentemente a independência financeira, acho que são as principais conquistas no contexto em que vivemos, e então vieram as outras.

A partir do momento em que a mulher não está mais restrita ao lar, ao pensamento da família e da Igreja, ela passa a se questionar mais sobre diversos assuntos, como sobre as dores que sofre e o por que as sofre, e o porquê as coisas ainda serem daquele jeito para ela, além de se reunir e unir com outras mulheres.

Sobre o direito a métodos anticoncepcionais, acredito que ainda vivemos em uma época de adaptação aos mesmos, pois muitas mulheres não conseguem utiliza-los, uns não são eficazes e nem todos são facilmente acessíveis.

Ainda estamos na caminhada de conquistar mais direitos e respeito. Não somos plenas. O diálogo tem tornado as pessoas pouco a pouco mais tolerantes. Hoje em dia, por exemplo, não se tolera mais que o mocinho da novela bata na mulher, mesmo que ela seja a vilã.

Estamos passando por uma nova fase de mudanças de valores, que ainda não são plenos, mas já podemos fazer um boletim de ocorrência e processar por assédio. Podemos também falar sobre as opressões e violências que sofremos, sem sermos tão julgadas como antigamente.

5. Na sua opinião, por que muitos ainda classificam a causa feminista como mimimi? O que seria necessário para mudar isso?

Muitos classificam desse jeito, por interferir em seus privilégios, ou nos privilégios que supostamente a mulher tem. Minimizar a dor do outro é tentar contar uma mentira até que ela se torne verdade. Para mudar isso, acho que temos que continuar lembrando como isso não é uma verdade.

Continuemos com nossa luta, nossas reivindicações, que não aceitemos essa diminuição de nossas quizas, que continuemos sãs e com argumentos sólidos a mostrar e sensibilizar as pessoas de como o machismo interfere e deixa consequências e cicatrizes enormes em nossas vidas e em nosso cotidiano.

6. Por que uma mulher no poder incomoda muita gente?

Porque é duro para quem tem privilégios, ver a imagem de alguém considerada por esses vulnerável, ultrapassar milhares de barreiras e dificuldades que ele sem dificuldade alguma e com todos seus privilégios e até facilidades (para dificultar a chegada daquela mulher aquela posição) não atingir atingir tal posição. Se ver mais frágil do que quem era tida por frágil, faz doer o ego.

7. Qual a importância dos coletivos nas universidades?

Toda! Ainda temos um espaço universitário extremamente machista, com muito abuso sexual silenciado dentro dos campus brasileiros e mundiais. Somos rotineiramente assediadas, ainda temos nosso trabalho subjugado, somos excluídas de áreas, de atividades práticas de pesquisas por sermos mulheres e isso não está certo.

Dentro da universidade somos oprimidas em todos os sentidos, não bastassem nossas opressões do dia a dia ainda temos que lidar com a possibilidade de ter nossas perspectivas profissionais reduzidas e consequentemente nossas perspectivas de igualdade de gênero também. A universidade e o mundo profissional continuam sendo as nossas principais conquistas e também nossos maiores instrumentos para a conquista de novos objetivos.

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Para acompanhar e conhecer mais sobre o Coletivo Feminista Geni da Fmusp, acesse a página no Facebook.

 

 

 

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Mulheres no grafite

O poder das mulheres na arte contra a opressão

reg. 075-17  Jü Violeta e MAG finalizam pintura, a convite da OFoto: Marcos Santos/USP imagens

Grafite e feminismo. A união de dois movimentos contra a opressão; o primeiro, uma arte, o segundo, uma luta. Tal ponto de vista ganha pouco destaque, mas usufrui de representantes em volume. Contra a discriminação de gênero e o machismo, o trabalho de grafiteiras se espalha cada vez mais por muros de São Paulo.

O graffiti, ou grafite, é uma manifestação artística urbana que teve início na década de 1970 Nova York, nos Estados Unidos. Jovens espalhavam pela cidade desenhos carregados de crítica à opressão da sociedade. Mesmo que ainda pouco, a presença feminina confere ao movimento um reforço do que essa arte representa. Já no Brasil, tal manifestação foi desde o começo bastante marginalizada, não tendo ao certo um registro do ano em que chegou ao país. Apesar disso, dia 27 de março é considerado o Dia do Grafite no Brasil, em homenagem ao etíope Alex Vallauri, que fez da arte sua voz em tempos de ditadura, para lutar contra a opressão da liberdade de expressão na época.

Em um meio em que os nomes como Cobra, Banksy e Os Gêmeos estão entre os mais falados, as brasileiras Mag Magrela e Ju Violeta mostram um cenário de renovação nessa arte: o crescimento do número de mulheres no mundo do grafite. As duas grafiteiras são bons exemplos de mulheres que não se deixaram intimidar pela presença masculina. “Eu nunca vi gênero nas coisas, nunca deixei de fazer algo por ser ‘de menino’”, afirma a paulistana Magrela, que começou a grafitar em 2007, momento em que “as ruas passaram a servir de base para os desenhos acumulados em cadernos”, conforme descreve em seu blog Mag Crua.

A força, os anseios e a representatividade feminina que ambas expressam muros afora, mostram porque a arte urbana feita por mulheres é importante para a sociedade, além de identificarmos um pouco de cada mulher e suas batalhas diárias, em busca pela libertação do corpo e da mente.  “Com certeza tudo que eu sou influência na minha arte… A parte feminina está presente no que me inspira, no meu traço e pintura”, comenta Violeta, que começou a grafitar nas ruas em 2004.

Já a inspiração vem de todos os lados, Magrela exemplifica “A inspiração se da a todo momento. O artista esta sempre presente para captar as inspirações e sinais que aparecem no dia a dia”. Magrela comenta ainda que, grande parte de seu reportório artístico tem influência das dores e da luta de seu gênero. “São os hormônios, a sensibilidade, a conexão com a terra e natureza”, explica. Violeta vai além e mostra que exatamente qualquer coisa que considera bela em seu dia a dia pode servir para inspirar “(…) ou em outros momentos de tudo que quero transformar! Sempre tive uma ligação forte com a natureza, com o meio ambiente, com os animais e neles é que vem a inspiração para a vida e consequentemente para a arte”.

Mundo afora, Magrela mostra que sua arte vai além de São Paulo, com trabalhos em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e até Portugal, Londres e  Nova York. Juntas, ela e Violeta fizeram no começo do ano, um grafite no Espaço das Artes, durante a programação da Semana de Artes HeforShe, evento global organizado pela ONU Mulheres, que buscava promover a igualdade de gênero e o empoderamento feminino.

*Matéria originalmente produzida para a disciplina de Redação e Edição da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Texto de: Fernanda Antônia e Victória Theonila.