A Mídia como Sol entre as Nuvens

“As coisas não mudam se não falarmos sobre elas”, argumenta a psicóloga Karen Scavacini, que acredita que o debate do tema suicídio na mídia pode ser benéfico à sociedade

livro-goethe-1.jpgFoto: Fernanda Antônia

No ano de 2017, com o lançamento da série “Os 13 porquês” na Netflix e também a repercussão dos casos de “A Baleia Azul”, iniciou-se um importante debate midiático sobre o tema suicídio, até então tido como um tabu pouco, senão mal discutido nos meios.

Em 14 de agosto de 2006, foi adicionado ao Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, criado pelo Ministério da Saúde com representantes do governo, de entidades da sociedade civil e das universidades, as diretrizes para orientar tal plano e uma delas é: “informar e sensibilizar a sociedade de que o suicídio é um problema de saúde pública que pode ser prevenido”. Uma forma de fazer isso nos dias de hoje é pela mídia, tanto a jornalística quanto a de entretenimento.

No entanto, desde o século XVIII, a publicação do livro de Johann Wolfgand Goethe, “O sofrimento do jovem Werther”, a psicanálise questiona por meio do Efeito Werther até que ponto a repercussão do tema é positiva. Esse efeito trata-se do “contágio” que acredita-se que a mídia pode causar ao pecar na cautela em suas falas sobre o assunto.

Tiago Souza, professor de Marketing e organizador do seminário “Comunicação e suicídio: 13 reasons why not” em maio de 2017, que discutia como os meios de comunicação em diversas partes do mundo, podem mais ajudar do que piorar quem sofre com comportamento suicida.

Em 2013, na Coréia do Sul, a marca Samsung foi responsável por uma campanha na ponte Mapo, que fez com que 85% da taxa de suicídio fosse diminuída. A proposta da marca, em conjunto com psicólogos e ativistas da prevenção ao suicídio, foi criar mensagens positivas como: “os melhores momentos da sua vida ainda estão por vir”, ou “como você gostaria de ser lembrado?”, fazendo com que as pessoas refletissem sobre o que estariam prestes a fazer.

Segundo Karen Scavacini, psicóloga mestre em Saúde Pública na área de Promoção de Saúde Mental e Prevenção ao Suicídio pelo Karolinska Institutet na Suécia, a mídia pode ajudar muito ao trazer o debate sobre o tema e mostrar onde as pessoas podem achar ajuda. “Não podemos nos esconder na questão do Efeito Werther para não falarmos abertamente sobre o assunto”, argumenta.

No entanto, Karen, que também foi revisora do texto “Prevenção do suicídio, uma necessidade global”, da Organização Mundial de Saúde (OMS), explica que é necessário cuidado e seguir a orientações da OMS.

Em 2016, durante setembro – mês Mundial de Prevenção ao Suicídio, a OMS divulgou que esse problema de saúde pública causa uma morte a cada 40 segundos. Ainda de acordo com a OMS, “o suicídio e as tentativas de suicídio são uma prioridade na agenda global de saúde, além de existir o incentivo para que os países desenvolvam e reforcem estratégias de prevenção”.

Depois da exibição da série Os 13 porquês, aumentou em 445% o número de e-mails buscando por ajuda, destinados ao Centro de Valorização à Vida (CVV). Esse dado mostra que mais pessoas sentiram-se estimuladas a procurar ajuda após consumirem um conteúdo midiático.

O fato de haver grande romantização da personagem foi alvo de críticas. A psicóloga Karen afirma que “Para as pessoas na fase da ambivalência, quando estão na dúvida entre cometer ou não o suicídio, esta [a romantização] pode ser o desencadeador do ato. Quanto mais a pessoa se identificar com o personagem, maior o efeito de contágio”. Entretanto, a demanda da mídia pelas ficções romantizadas é um valor a se considerar. Como afirma Tiago Souza, se não romantizar, não há a venda do programa e, consequentemente, não há a ampliação do debate sobre o tema.

De acordo com a psicóloga, o primeiro erro a ser considerado nas notícias referente a Baleia Azul foi a denominação “jogo”. “O que aconteceu foi crime”, comenta. Ainda assim, ela também defende que a divulgação é necessária e que houve reportagens boas, mas a presença das sensacionalistas são perigosas. A cartilha para imprensa do CVV classifica tal escolha como sensacionalismo criado por maus profissionais.

Tanto o profissional de comunicação Tiago como a psicóloga Karen afirmam que a mídia é capaz de trazer a tona um debate que as pessoas tem medo de debater, e esse debate é uma forma de estimular os grupos de risco a procurarem ajuda. “Saber que a chuva não cai só sobre você ajuda você a continuar”, exalta Tiago.

*Matéria originalmente produzida para o Jornal Diretriz na disciplina de Redação e Edição da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Texto de: Fernanda Antônia e Victória Theonila.

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